O Estado Intermediário

Dentro da Teologia Cristã, o assunto “estado intermediário” trata da condição da pessoa no período entre a morte e a ressurreição. “Onde e como estão os mortos? Eles estão conscientes? Os perdidos que morreram já se encontram em tormentos, no inferno? E os salvos, eles já estão na presença do Senhor?” São essas e outras questões que são tratadas no assunto “estado intermediário”.

ONDE E COMO ESTÃO OS MORTOS?

O mundo dos mortos antes e depois da ascensão de Cristo

Antes da ascensão de Cristo, as almas de todos os mortos (salvos e perdidos) seguiam para o mundo dos mortos, local este identificado no Antigo Testamento pelo termo hebraico sheol (Gn 37.35; Sl 9.17; 16.9, 10, etc.), e, no Novo Testamento, pelo termo hades (Lc 16.23; At 2.27, 31, etc.). Das 65 ocorrências de sheol no Antigo Testamento, na maior parte esse vocábulo não se refere ao reino dos mortos. Essa palavra hebraica possui diversos sentidos, podendo significar, dependendo do contexto, “pó”, “profundezas”, “sepultura”, “abismo”, “além”, “mundo dos mortos”, etc. O mesmo se dá com a palavra grega hades, usada no Novo Testamento, que assume diferentes significados.

Quando as almas dos mortos chegavam ao Sheol (=Hades), as dos salvos seguiam para um compartimento de bem-aventurança e consolo chamado “seio de Abraão” ou “paraíso” (Lc 16.22, 23, 23.43; At 2.27, 31). Já as almas dos perdidos, estas eram lançadas num local de dor e desgraça chamado “tártaro” (Lc 16.23-25, 28).

No entanto, após a ascensão de Jesus houve uma mudança: as almas dos salvos não são mais conduzidas para o Sheol, mas, sim, diretamente para o céu, para ficarem ao lado do Senhor. Essa mudança pode ser percebida quando comparamos os textos que falam sobre o destino dos cristãos que morreram após a ida de Jesus ao céu: todos esses textos dizem que esses cristãos foram para o céu, e não para o Sheol (comparar: Gn 37.35; Sl 16.10; Lc 16.22, 23; 23.43; At 2.27, 31 com At 7.55, 56, 59; 2Co 5.3-8; Fp 1.21-23; Ap 6.9-11). Ao ascender ao céu, nosso Senhor levou consigo as almas de todos os justos do Antigo Testamento que estavam no lado aprazível do Sheol (Ef 4.8-10; Hb 12.22, 23). Desde então, o Sheol abriga e recepciona unicamente as almas dos perdidos.

Há um padrão segundo o qual as almas dos mortos não podem sair do Sheol

Segundo as Escrituras Sagradas, existe um padrão que regula o Sheol, segundo o qual uma alma só pode sair desse lugar por meio da ressurreição. Esse padrão de que estamos falando encontra respaldo nas passagens bíblicas abaixo.

Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite (Lc 16.31).

Enquanto estava sob tormentos no lado desventurado do Sheol/Hades (Lc 16.22, 23), o rico tolamente pediu a Abraão que enviasse Lázaro de volta ao mundo dos vivos. Ele acreditava que Lázaro, que estava no lado agradável do Sheol, o “seio de Abraão”, poderia alertar seus irmãos que ainda estavam vivos do terrível destino que também os aguardava no além, caso eles não mudassem seus caminhos tortuosos (vs. 27, 28). Em resposta, Abraão disse ao rico que se os irmãos dele não davam a menor importância à palavra de Deus (“Moisés e aos profetas”), então jamais se arrependeriam, nem mesmo se um morto ressuscitasse e pregasse-lhes a palavra (v. 31). Por essa resposta de Abraão, infere-se que a maneira natural de um espírito sair do Sheol (= Hades) e entrar em contato com a dimensão dos vivos é se ele estiver unido a um corpo.

Vejamos outro texto que igualmente ensina esse padrão:

Pois não deixarás a minha alma no hades, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção... Nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no hades, nem a sua carne viu a corrupção (At 2.27, 31; v. tb. Sl 16.10).

Assim que morreu, a “alma” de Cristo foi para o Sheol (=Hades), o mundo invisível dos mortos. Foi esse o lugar onde a alma de Jesus ficou durante os três dias em que Seu corpo gélido jazia no sepulcro. Porém, é dito que a alma dEle não foi “deixada” (ou “abandonada”) no Sheol. Por quê? Porque ela se uniu novamente ao Seu corpo no domingo da ressurreição.

Ora, se a alma de Cristo “não foi deixada no hades”, então isso indica que as outras almas, das outras pessoas que morreram, são deixadas nesse lugar, só podendo sair através da ressurreição, como aconteceu com Jesus. Ou seja, somente Deus pode retirar uma alma do Sheol. Se o Pai não tivesse ressuscitado Jesus, seguramente Sua alma estaria, até hoje, abandonada no Sheol.

Baseando-se nessas informações, concluímos que tanto as almas dos salvos quanto as dos perdidos só poderão sair de onde atualmente estão no dia da ressurreição. Esse é o padrão, o curso normal que rege o Sheol (=Hades). Dessa forma, ainda que um vivo evoque a alma de uma pessoa morta, assim mesmo ele não conseguirá trazê-la para esta dimensão. E mesmo que uma alma queira, por vontade própria, sair do Hades, ela não poderá deixar esse lugar.[1] Excetuando-se Deus, absolutamente nenhuma criatura tem poder para quebrar esse padrão estabelecido.

A situação de salvos e perdidos durante o estado intermediário

Como já fizemos notar, as almas dos salvos se encontram no céu, na presença do Senhor, onde aguardam o dia da primeira ressurreição, quando receberão corpos glorificados. Já as almas dos perdidos, elas estão no lado ruim do Sheol (=Hades), sob tormentos. Agora, faremos alguns comentários sobre a condição dessas almas no além.

Com relação às almas dos salvos, é importante corrigirmos a noção equivocada (porém bastante difundida na mente de muitos cristãos) de que os galardões dos fiéis já são concedidos no momento em que eles morrem, quando suas almas vão se encontrar com Jesus, no céu. Porém, a Bíblia vai contra tal concepção. O que acontece no momento da morte dos salvos, isso sim, é o encontro deles com o Senhor (At 7.55-59; 2Co 5.1-10; Fp 1.23; Ap 6.9-11, etc.). A concessão dos galardões dos fiéis, porém, ocorrerá somente quando Cristo retornar (Mt 16.27; 25.31-40; Lc 19.17, 19; 1Co 3.12-15; Ap 22.12, etc.), evento este que também marcará a ressurreição dos remidos. Os justos receberão seus galardões quando estiverem em posse de corpos glorificados.

Acerca das almas dos perdidos que estão no Sheol, as mesmas já se encontram sob condenação. Como o apóstolo João disse: “Quem crê nele [em Jesus] não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito de Deus” (Jo 3.18). Portanto, se em vida os ímpios já estavam debaixo da condenação divina, essa situação permanece inalterada após a morte.

Porém, os ímpios que já partiram desta vida ainda aguardam o dia em que comparecerão (em corpo e alma) perante Aquele que se assenta no “grande trono branco” (Ap 20.11) para serem publicamente julgados. Ao final desse julgamento, os ímpios ouvirão, dos lábios do próprio Deus, a sua sentença condenatória. Tal julgamento público ocorrerá no fim dos tempos, logo após os perdidos ressuscitarem.

Como fica claro, tanto a concessão dos galardões dos salvos quanto o julgamento e condenação públicos dos perdidos dar-se-ão quando ambos os grupos estiverem em posse de corpos físicos. Até agora, nem as almas dos salvos nem as dos perdidos receberam, em sua totalidade, aquilo que lhes está reservado. Isso se explica pelo fato de o estado intermediário ser uma condição transitória e anormal de existência dos seres humanos, como veremos no tópico seguinte.

Por receber e abrigar apenas as almas dos mortos, o Sheol é um local transitório

Neste ponto, é importante sabermos duas coisas. Em primeiro lugar, quando falamos sobre o estado intermediário, temos que ter em mente que o Sheol (=Hades) é um local transitório, passageiro para as almas dos mortos. Embora os perdidos que morreram já estejam sob tormentos no Sheol, este não é o local definitivo em que ficarão eternamente. E por quê? Porque o estado desincorporado de existência é uma anormalidade, pois Deus não criou a alma humana para viver separadamente de um corpo. Isso explica por que todos os mortos, salvos e perdidos, serão, futuramente, ressuscitados.

Portanto, quando ocorrer a segunda ressurreição, as almas dos perdidos retornarão para seus corpos (cf. Mt 10.28), e aí eles serão publicamente julgados e condenados (Ap 20.11-15). Após ouvirem sua sentença, finalmente os ímpios serão lançados, em corpo e alma, na Geena, e nesse terrível lugar ficarão sofrendo por toda a eternidade (cf. Mt 10.28).

Dessa maneira, enquanto o Sheol (=Hades) é um lugar transitório para os maus, a Geenna é um local definitivo para eles. Enquanto o Sheol recebe e abriga apenas as almas dos maus, a Geenna receberá o corpo e a alma deles. Enquanto os perdidos encontram-se sob certo nível de tormentos no Sheol, tais tormentos serão absurdamente aumentados quando eles forem precipitados na Geena. Enquanto o Sheol já está em atividade há milhares de anos, a Geenna só será inaugurada no fim dos tempos (cf. Mt 10.28; 25.41).


[1] Tal idéia, evidentemente, vai contra crenças pagãs tais como a reencarnação, a comunicação com os mortos, a oração em prol dos mortos, a transmigração da alma, etc. Biblicamente falando, não existe qualquer possibilidade de os mortos interferirem, positiva ou negativamente, na vida dos vivos (e vice-versa), pois a morte assinala uma quebra nos relacionamentos entre ambos os grupos.

O que é a Geenna?

O vocábulo grego geenna aparece doze vezes no Novo Testamento (Mt 5.22, 29, 30; 10.28; 18.9; 23.15, 33; Mc 9.43, 45, 47; Lc 12.5; Tg 3.6), e vem do hebraico gehinnon, “Vale do filho de Hinnon”. Esse vale situava-se a sudoeste de Jerusalém (Js 15.8; 18.16; Jr 19.2, 6, etc.), e, numa época de grande apostasia no reino de Judá, foi utilizado por alguns reis apóstatas para oferecer seus filhos em holocausto ao falso deus Moloque (2Cr 33.6; Jr 7.31, 32; 32.35). Durante sua reforma religiosa, o piedoso rei Josias assolou esse vale, botando um fim naquela execrável prática (2Rs 23.10).

Já na época do profeta Jeremias, o Vale do filho de Hinnon começou a simbolizar o local do juízo divino (Jr 7.32; 19.6, 7), e esse simbolismo atravessou todo o período interbíblico, chegando até o Novo Testamento. Nos dias de Jesus, esse vale servia como depósito de lixo, mas também recebia os cadáveres dos criminosos mais desprezíveis. Devido ao fogo e enxofre que queimavam constantemente, o Vale do filho de Hinnon certamente era um bom simbolismo para o castigo divino que viria sobre os maus no Juízo Final.

A Geenna refere-se ao local definitivo de punição eterna para ímpios e anjos caídos, e é a mesma coisa que o “lago de fogo e enxofre” mencionado no livro de Apocalipse (14.10, 11; 19.20; 20.10, 14, 15; 21.8). Ela é descrita como um lugar de “fogo eterno” (Mt 18.8, 9; 25.41; Mc 9.43-48; Jd 7) e de “tormento eterno” (Mt 25.46).

Merece atenção o fato de muitas versões de nossas bíblias traduzirem, em algumas passagens, os vocábulos equivalentes sheol (hebraico) e hades (grego) pela palavra portuguesa “inferno” (do latim infernus, “lugar profundo, inferior”), o que acaba gerando confusão na mente da maioria dos leitores, pois estes já estão acostumados com a popular e cristalizada idéia de que o inferno é um lugar definitivo de punição somente para ímpios. Contudo, tais leitores, imbuídos dessa noção parcialmente equivocada, enfrentam dificuldades quando se deparam com alguns textos bíblicos como este, por exemplo, em que Pedro disse sobre o Cristo:

Pois não deixarás a minha alma no inferno [gr. hades], nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção (At 2.27).

Será que a alma de Jesus, durante os três dias em que Seu corpo repousou no sepulcro, permaneceu num lugar de tormentos chamado “inferno”? Absolutamente, pois antes da ascensão de Cristo as almas de todos os mortos seguiam para um local chamado Hades (= Sheol), que, no texto de Atos 2.27 acima, foi traduzido por “inferno”. Chegando lá, as almas dos justos eram levadas para um compartimento aprazível, o “paraíso” ou “seio de Abraão” (Lc 16.22; 23.43), ao passo que as almas dos injustos eram lançadas num local de penúria e dor, o “tártaro” (2Pe 2.4). Ou seja, o Hades não era um lugar unicamente de castigos, destinado aos ímpios. Naturalmente, a alma do Cristo ficou três dias na área destinada aos santos do Antigo Testamento, saindo de lá no domingo da ressurreição.[1]

Essa confusão em torno da palavra “inferno” poderia ser evitada se os tradutores vertessem hades em Atos 2.27 (e em outros textos do NT) por “mundo dos mortos”, “além”, ou apenas transliterassem esse vocábulo grego.

Finalmente, vale lembrar que o Hades está associado ao estado intermediário, pelo que recebe e abriga, temporariamente, apenas as almas dos perdidos. A Geenna, porém, por estar relacionada ao fim dos tempos, receberá a pessoa integral (Mt 10.28), que permanecerá aprisionada nesse lugar eternamente. A Geenna, portanto, ao contrário do Hades, ainda não foi inaugurada.


[1] Após a ascensão de Jesus, as almas de todos os crentes passaram a ir diretamente para o céu, para desfrutar da presença do Senhor. Desde então, só seguem para o Hades/Sheol as almas dos perdidos. Para constatar essa mudança, comparar Gn 37.35; Sl 16.10; Lc 16.22, 23; 23.43; At 2.27, 31 com At 7.55, 56, 59; 2Co 5.3-8; Fp 1.21-23; Ap 6.9-11.

Paulo Sérgio de Araújo

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