Ministério - Edward Dennett

Prezado _______:

É surpreendente notarmos que o ministério que é praticado nas chamadas "igrejas" da Cristandade não tem a mínima semelhança com o que encontramos na Palavra de Deus.

Procure o mais que puder, desde os tempos quando a Igreja de Deus foi constituída, até à conclusão do registro inspirado (as Escrituras), e você não encontrará um traço sequer de haver existido a prática do ministério por um único homem. 

São mencionados apóstolos, anciãos (ou bispos), diáconos, pastores e doutores (ou mestres), e evangelistas; mas não existe qualquer indicação de algo parecido com os ministros e pregadores de nossos dias. Pois todas as denominações da Cristandade - salvo uma ou duas exceções pouco significativas - concordam em sua opinião quanto ao que é o ministério. 

Nas denominações, como regra geral, um homem é escolhido para cuidar ou tomar o encargo de uma "igreja" ou congregação, e dele se espera que ensine, pregue o evangelho e seja um pastor. Em poucas palavras, espera-se que nele estejam unidos os ofícios de um ancião, e os dons de um pastor e mestre, e também de um evangelista. Desta forma, é comum ocorrer que somente um homem tenha o completo e contínuo cuidado da mesma congregação por vinte, trinta ou quarenta anos; e não pode ser negado que os cristãos professos gostam que seja assim.

Mas a questão é: será que tal prática é bíblica? Conto com mais um pouco de sua paciência enquanto procuro responder a esta pergunta com base na própria Palavra de Deus. Nem preciso lembrá-lo de que nosso bendito Senhor escolheu apóstolos durante Sua jornada terrena, e que, após Sua ressurreição e ascensão, apareceu a Saulo e também o escolheu, fazendo dele, de uma forma especial, o apóstolo dos Gentios (Leia Atos capítulos 9, 22, 26 e 1 Coríntios capítulo 15).

Os apóstolos, como todos reconhecem, tiveram um lugar único e peculiar foram dotados de autoridade e dons extraordinários e nunca tiveram sucessores. Não deveria detê-lo por mais tempo falando sobre isto pois a inexistência de sucessores dos apóstolos é geralmente aceita fora das igrejas Romana e Anglicana (ao menos no Ocidente). 

Portanto creio que duas passagens serão suficientes. Pedro, escrevendo aos crentes de seu próprio povo "aos estrangeiros dispersos no Ponto", etc. diz, "eu procurarei (por meio de sua carta) em toda a ocasião que depois da minha morte tenhais lembrança destas coisas" (2 Pedro 1.15). Assim ele os entregava, para o futuro, à direção estabelecida pela Palavra escrita (e não pela sucessão apostólica). 

Do mesmo modo, Paulo, ao se dirigir aos anciãos da Igreja em Éfeso, alertando-os para as dificuldades e perigos que haviam de vir, diz:

"Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça" (Atos 20.32). 

Portanto, os dois grandes apóstolos o da circuncisão, e o da incircuncisão concordavam neste ponto; igualmente declaram que a fonte onde a Igreja deveria buscar o seu suprimento deveria ser a Palavra de Deus. Fica bem evidente que eles não previam sucessores para exercer o seu ofício.

O ofício seguinte, na ordem que nos é apresentado na Palavra de Deus, é o de bispos ou anciãos. Digo bispos ou anciãos pois na verdade nada mais são do que dois nomes para o mesmo ofício. O capítulo 20 de Atos torna isto bem evidente e elimina qualquer discussão que se pretenda a respeito. Lemos ali que Paulo mandou chamar os "anciãos da igreja" (vers. 17). Ao se dirigir a eles, ele os chama de "bispos" (vers. 28). Bem, eles nunca são encontrados no singular. 

A Igreja em Éfeso, no versículo que citamos, tinha mais de um bispo. Paulo chamou os "anciãos" da Igreja. O mesmo ocorre em Atos 14.23 quando Paulo e Barnabé elegeram "anciãos em cada igreja". Também na epístola aos Filipenses lemos de "bispos e diáconos" (Filipenses 1.1), "anciãos" (Atos 15.23) ou "presbíteros" (Tito 1.5).

Passando agora à questão dos dons, que se trata de algo distinto dos ofícios, iremos encontrar "pastores e doutores" (ou mestres, segundo outras traduções) (Efésios 4.11). Vou tratar de ambos de uma só vez pois, na verdade, eles encontram-se ligados nas Escrituras, e ligados de uma forma tão estreita na passagem citada como que para indicar que poderiam ser encontrados em uma mesma pessoa. 

Será que isto autorizaria uma só pessoa a tomar o encargo de toda uma congregação? De maneira nenhuma, pois lemos que "na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores", sendo apresentados a seguir os nomes de pelo menos cinco deles (Atos 13.1).

Para aqueles que pensam que Timóteo e Tito formam uma evidência em contrário, basta uma breve análise para que isto também seja esclarecido. A Tito é dito claramente que ele havia sido deixado em Creta para que pusesse "em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesse presbíteros" (Tito 1.5); e a Timóteo são mostradas quais as qualificações dos bispos (1 Timóteo 3), e é expressamente ordenado para não impor "precipitadamente as mãos" a ninguém (1 Timóteo 5.22), isto é, para não designá-los para o ofício. 

Portanto nada pode estar mais claro do que o fato de que estes dois, Timóteo e Tito, estavam agindo com a autoridade que lhes foi delegada pelo apóstolo e como tais estavam fazendo um tipo de supervisão geral, tendo ainda autoridade para nomear homens idôneos para o ofício de bispos e diáconos; uma autoridade exercida por indivíduos, e não por igrejas. E ela nunca foi exercida senão pelos apóstolos, ou no caso que acabamos de ver, por seus delegados diretos, nunca tendo sido transmitida a qualquer sucessor, e havendo consequentemente cessado com a morte dos apóstolos.

Falta ainda outro dom que deve ser notado - o dom de evangelista (Efésios 4.11). Vem depois de "profetas", mas vamos tratar dele antes devido ao seu caráter. Como o próprio nome diz, o trabalho do evangelista é pregar o evangelho; portanto o alvo do seu ministério não é a Igreja, mas o mundo. O próprio Senhor descreve a responsabilidade do evangelista quando ordena aos Seus apóstolos:

"Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura" (Marcos 16.15). 

Tentar limitar o trabalho de um evangelista a uma congregação, ou mesmo a uma única vila ou cidade, é ignorar o propósito do seu dom. Por isso o apóstolo Paulo, quando fala de si mesmo a este respeito, diz: 

"Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes. E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma" (Romanos 1.14,15).

Voltamos à questão: De acordo com a Palavra de Deus, qual é o verdadeiro caráter do ministério? Em primeiro lugar, ele flui de Cristo que está à direita de Deus, como Cabeça da Igreja. É Ele a fonte. 

"Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo. Pelo que diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens... E Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo" (Efésios 4.7-13). 

Eis um princípio importante: os dons não foram dados à Igreja, mas aos homens para benefício da Igreja. Sendo assim, aqueles que os receberam são responsáveis - não perante a Igreja, mas diante do Senhor - pelo seu exercício. Portanto a Igreja fica impossibilitada de designar pastores e doutores (ou mestres) ou qualquer dos dons mencionados, uma vez que vimos que a responsabilidade da Igreja é de receber o ministério de todo aquele que foi qualificado pelo Senhor para a sua edificação. Assim como o ofício apostólico de Paulo, o dom não vem "da parte dos homens, nem por homem algum" (Gálatas 1.1), mas do Cristo ressuscitado.

Existe outra verdade de igual importância, a saber, que os dons só podem ser adequadamente exercitados no poder do Espírito Santo. A presença do Espírito Santo é a característica marcante desta dispensação. Ele habita na casa de Deus, a Igreja, e habita também nos crentes (João 7.39; 14.16,17; Atos 2; Romanos 8.15,16; 1 Coríntios 6.19; 2 Coríntios 6.16; Efésios 1.13; 2.22; etc.). 

Portanto, quando os crentes estão reunidos, conforme nos ensina 1 Coríntios 12 e 14, o Espírito Santo atua soberanamente nos membros do corpo de Cristo e também por meio destes, de acordo com o dom de cada um: 

"Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência;... mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer" (1 Coríntios 12.8-11). 

Qualquer regra humana para o ministério na assembléia não só é incompatível com esta verdade, como chega ao ponto de ignorar totalmente o direito que o Espírito de Deus tem de ministrar por meio de quem Ele escolher. Com toda a certeza isto é algo extremamente solene e não deve ser tratado com leviandade. Mas como é triste vermos que isto é menosprezado pela maioria! 

Além do mais, a presença do Espírito Santo é de tal forma esquecida, que a autoridade e as pretensões do homem a substitui, sendo isto aceito e considerado perfeitamente correto pela grande maioria dos que professam ser de Cristo.

Você deve ter o cuidado de observar que as Escrituras não ensinam que todos têm liberdade para ministrar, mas que deve haver liberdade para o Espírito Santo ministrar por meio de quem Ele quiser. Existe uma enorme diferença entre ambas as coisas. 

A primeira seria democracia, e não há nada mais longe dos pensamentos de Deus do que isto; a segunda envolve a manutenção do Senhorio de Cristo no poder do Espírito; a sujeição de todos os membros do corpo à Cabeça, e completa dependência da direção e sabedoria do Espírito de Deus. No primeiro caso, o homem é quem toma a primazia; no segundo, Cristo é reconhecido como supremo.

Enquanto afirmamos estes princípios cardeais do ministério, devemos ser cuidadosos em lembrar que todo verdadeiro ministério deve estar em sujeição à Palavra de Deus e em conformidade a ela. Isto está claro nas instruções de 1 Coríntios 14. O apóstolo chega até mesmo a dar instruções precisas concernentes ao exercício dos dons, e segue dizendo: 

"Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor" (1 Coríntios 14.37). 

À assembléia é dado com isso o direito, ou mais ainda, a responsabilidade de julgar se aquilo que está sendo ministrado está de acordo com a verdade (1 Coríntios 14.29), e rejeitar tudo aquilo que não esteja de acordo com este critério. Portanto, não se trata de algo deixado à mercê de homens voluntariosos, mas é algo dado como salvaguarda para inspecionar e repreender toda manifestação que seja da carne e não do Espírito.

Pode-se acrescentar algo mais. Após tratar da questão dos dons, e mostrar que o seu exercício sem amor é de nenhum valor (1 Coríntios 12 e 13), o apóstolo ensina que o propósito do exercício dos dons é a edificação da assembléia (1 Coríntios 14.3-5). Quão maravilhosos são os caminhos de Deus! Reunidos pelo Espírito ao redor da Pessoa de nosso Senhor Jesus, à Sua mesa, para celebrar a Sua morte, Ele dirige os nossos corações em adoração e louvor, e então Ele ministra a nós aquilo que vem diretamente de Deus por meio dos vários membros do corpo de Cristo. Ocorre, assim, uma dupla ação do Espírito. Ele nos capacita a oferecer os sacrifícios de louvor a Deus e, consciente das nossas necessidades, provê a palavra de sabedoria, conhecimento ou exortação, conforme nossa necessidade no momento.

Creio que atingi os limites desta minha carta. De qualquer forma, você mesmo será capaz de descobrir mais sobre este assunto, e assim verificar se o que já lhe adiantei está de acordo com a Palavra de Deus. 

"Examinai tudo. Retende o bem" (1 Tessalonicenses 5.21). 

É recomendável ainda a leitura de Romanos 12.4-8 e 1 Pedro 4.10,11.

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